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Devaneio

Devaneio...
sonho
perco-me
encontro-me
arquitecto o futuro
vivo
supreendo
surpreendo-me
sou surpreendida
por ti
por mim
por vós
pela vida
pelo mundo
sinto
alegria
tristeza
melancolia
audácia
desafio
ali estou
ali fico
para acolá vou
o mundo é mais
e mais
e muito mais
é meu
é teu 
é nosso
devaneio
liberto
o passado
agarro
o futuro
é para que vou
no devaneio.

Segredo

Segredo? Afinal qual é o meu segredo?
Permaneci a pensar nesta questão durante alguns minutos. Percebi que todos temos segredos e dei por mim a, espontaneamente, evocar algumas memórias. Suponho que estas estejam na origem do meu segredo.
Nasci e comecei a construir uma casa. Com ajuda dos meus pais e dos meus avós coloquei os primeiros tijolos, amassei o cimento. Deixei cair outros tijolos, magoei-me enquanto a outros alguém deitava a mão e os assentava devidamente.
Quando comecei a vislumbrar o final da construção "grossa", imaginei como ficaria a casa se a pintasse. Que cor lhe devo dar? Amarelo, branco, verde água, azul bebé? Suponho que as normas e convenções sociais influenciar a escolha pelo branco. Isolei a casa com alguns alumínios que abriam e fechavam, permitindo que o exterior invadisse o interior da minha casa e que esta pudesse emanar para o exterior a alegria que tem para que outros a pudessem sentir e partilhar.
A decoração interior, em particular a do quarto, era o meu espaço de liberdade. Pintei-o de rosa bebé. Aquele seria o meu espaço, o meu mundo. Naquele planeta em que reinava com as bonecas, carrinhos e demais brinquedos e acessórios, colei fantasminhas na parede (daqueles que saiam nas guloseimas), colei posteres de pessoas importantes (pensava eu). Defini que haveria um espaço para as tarefas que me iriam instruir e contribuir para o desenvolvimento das minhas competências de leitura, cálculo, cultura geral... 
A porta desse quarto permitia o acesso aos demais compartimentos e às pessoas que comigo dividiam os espaços. 
Da varanda via a rua, o largo da capela onde tantas vezes joguei à bola, andei de skate, saquei uns peões de bicicleta, toquei o sino, ou simplesmente conversava com os amigos e vizinhos.
De vez em quando, geralmente ao sábado, era necessário (quero dizer, obrigatório) sacudir o pó aos tapetes, aspirar, limpar o pó do meu quarto e dos demais compartimentos. Ao limpar o pó tinha que tirar os objectos do local, repunha-os, mas geralmente noutro local. De mim para mim pensava, - assim fica mais bonito! E ficava. Movia as energias. 
À noite, ao deitar, olhava em volta e contemplava a minha nova casa, parecia agora mais bonita, via coisas diferentes, ou pelo menos em locais diferentes, ouvia novos sons, tinha um novo odor, as minhas mãos percebiam que tudo o que tacteavam era diferente, até o paladar era diferente. Tudo era novo. Eu era nova. Estava pronta a a começar.
Hoje penso que nas nossas vidas há que fazer essas limpezas, arrumar os objectos, limpar o pó, fazer mudanças, utilizar um odor novo, um caminho novo para que a nossa mente possa continuar a coleccionar imagens de alegria e de felicidade, para que as nossas energias se movam, para que a nossa sede de mudança possa ser real e para que essa ocorra dentro de nós e possa ser partilhada com aqueles que nos acompanham nesta caminhada e nestas "limpezas" secretas que tão fortes e resistentes nos fazem.
Suponho ser este o meu segredo. Desejar descobrir-me a cada minuto, ainda que por vezes parece que possa ficar ofuscada pelo pó e pela poluição. Cuidar da nossa casa é antes de mais cuidarmos de nós, cuidar da casa que vai connosco para todo o lado. Suponho ser esse o segredo que tenho que continuar a descobrir, mover as energias que já possuo e experimentar e coleccionar memórias e lembranças das que vivo e ainda vou viver como momentos únicos e especiais.