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O meu refúgio

Percursos civilizacionais, rasgos de betão ladrilhados por mão humana guiam o desnorte do silêncio, elevam o poder do pensamento, da ilusão, toda e qualquer imaginação; perturbam o azul vivo do verão, o verde vida da mais bela primavera; atravessam vales, montanhas e planícies acastanhadas e despidas do outono; no inverno vestem de branco transparente frio e gélido ofuscando os olhares dos transiundes que em veículos a motor, pedais ou simples animais perdem os pensamentos em plena ebulição.

(Escrito em 27 de Abril de 2011)

Dialogando

¾ Finalmente!
¾ Desculpa ¾ respondeu Ana, aproximando-se para beijar o namorado.
¾ Sempre atrasada. Estou a pensar oferecer-te um relógio com alarme programável à distância.
¾ Que ideia brilhante!
¾ Assim posso programá-lo ¾ ironiza.
¾ Aproveita e coloca também GPS e videovigilância…
¾ Com ligação directa ao youtube. ¾ interrompeu João.
¾ Tudo isto para haver controlo? Ou será ciúme?
¾ Humm…
¾ Como devo interpretar essa não resposta? ¾ retomou ela.
¾ Talvez ciúme por não poder estar contigo mais tempo ¾ disse enquanto a olhava e a acotovelou carinhosamente.
¾ Ai! Primeiro controlo e ciúme, agora violência? ¾ comentou arregalando os olhos para o intimidar.
¾ Olha! Está ali um polícia, queres ir apresentar queixa? Vamos lá, eu acompanho-te.
¾ Tantas ideias brilhantes num só dia! Bora…
¾ Bora lá! Mais uma aventura!
De mãos entrelaçadas, troteando pelo jardim dirigiram-se ao agente. Cumprimentaram-no e seguiram em direcção ao cinema.


(Escrito a 13 de Abril)

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Já ca estamos outra vez!
Dito de outra forma: gira o disco e toca (quase) o mesmo.
Exactamente: quase!
Sim, porque não é bem a mesma coisa.
Os tempo passa. Os meses repetem-se, 12 meses depois estamos de novo no mesmo mês e, quase, no mesmo dia, talvez até no mesmo local.
Quase em Maio, já a maior parte das Academias do país se dedicam a viver e beber até ao fim da queima das fitas. São estas épocas que, uns recordam, outros revivem e outros vivem pela primeira vez. São estas épocas que integram alguns dos mais importantes rituais de transição. Para outros, mesmo superados esses rituais, todos os anos os vivem de forma diferente e reescrevem as histórias. Sim, reescrevem. Felizmente! Nada acontece duas vezes exactamente da mesma forma.
Mais um passo em frente neste jogo de "macaquinho do chinês", onde todos desejam aproximar-se dos objectivos, muitas vezes, os mesmos objectivos. A estratégia pode diferir. Uns são sorrateiros e discretos, caminhando pé ante pé enquanto outros correm, voam e fazem ruídos que velozmente os levam.... onde quer que seja.
Também este ano, lá estaremos. Umas vezes, seja por caminhos discretos seja por atalhos indiscretos.
Já cá estamos outra vez!
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Traço de um personagem

Naquela viagem visita locais que fizeram parte da sua história e simultaneamente para o passeio e projecto seguinte. pesquisa, informa-se, planeia, cria cenários. Em aberto permanece espaço para a exploração e curiosidade apenas preenchidos in loco. Aí, abre a caixa de experiências, cruza memórias, preenche os vazios com toda a informação, pormenores que observa, escuta, tacteia, inala e partilha. Mais uma peça do puzzle se encaixa e cuidadosamente acomoda na colecação de memórias, emergindo no horizonte ideias para conseguir encontrar a peça seguinte desta colecção.

(Escrito em 6 de Abril de 2011)

Um dia solarengo

Naquele domingo, num banco de jardim, um senhor de meia idade, aparentemente solitário, folheava tranquilamente o jornal. Finda esta tarefa, levanta o olhar, olha em volta e, sem tecer quaisquer comentários, abre o saco que repousava à sua direita para nele colocar o jornal. Tudo indicaria que este se aprumava para deixar vago o lugar de jardim, naquela sombra tão cobiçada. Em vez disso, tira agora uma revista, daquelas que acompanha os jornais domingueiros que fala de tudo e está repeleto de imagens e publicidade. Mantendo a tranquilidade, folhea as páginas, delicia-se com os títulos e com a publicidade à lingerie da moda.
Uns metros à frente, um bando de crianças corre pelos jardins. Qual passarinhos, qual quê?, pareciam aves de rapina, saídas naquele preciso momento do mais longo período de hibernação. Corriam e saltavam, desejavando absorver toda a energia que um peçado de relva verde irradia. Aquele jardim monocromático, em tons de verde e castanho, apenas era animado pelos tons joviais dos que por lá passavam, uns de t-shirt branca, outros de preto, com camisas vermelhas e amarelas desabotoadas ou casacos azuis de mangas arregaçadas.
Para completar o cenário, os pais de trajo domingueiro e as mães de salto alto à altura, estravazavam as histerias até então camufladas, soltando esguinchos e gritos imperceptíveis aos ouvidos das suas crianças. A determinada altura o cenário era em tudo semelhante a um campo de futebol. Os pais, meticulosos observadores, vociferavam de ponta a ponta na esperança de que as crianças, ocupadas com coisas certamente mais interessantes, lhes dessem ouvidos e adequassem os seus gestos e movimentos para que não se magoassem. As crianças, jogavam e passeavam-se em movimentos aparentemente descoordenados, procurando cumprir com os objectivos dos seus jogos improvisados. O leitor de jornal, espectador deste jogo, que percebe já nada mais perceber desta organização actual, dos objectivos e das regras deste futebol, opta por se remeter ao silêncio e desfrutar dos ruídos do espaço e dos protagonistas do desafio. Os ruídos do rio, água viva e fluída, aplude toda a dinâmica exterior à própria natureza como se dela se apropriasse, tecendo ovações aos utilizadores daqueles jardins.

Uma noite de insónia

O último olhar para o espelho de luzes intensas e claras, o perfume do quarto, o toque naquele vestido branco-luz que ilumina a porta que se abria.
Repousa a cabeça sobre a almofada e o corpo sobre a cama. Sacode o corpo em busca de tranquilidade e descontracção. O pensamento vagueia, avança e recua pela infância, amores e desamores, o encontro, o beijo, o pedido.
Sacode de novo o corpo e, autoritária, ordena: "descontrai, vai correr tudo bem, vou ser feliz!".
O tic-tac do relógio lentifica-se, o pensamento é como a luz e o som em competição.
Repousa, descansa. - pensa.
Olha de novo para as horas. Passaram trinta segundos desde o último olhar.
Acendeu-se o telemóvel que descansava em cima da cómoda.
Quem será? - pensa. Será que desistiu?
O coração parece um leopardo em defesa da cria, capaz de correr perigos e superar inseguranças.
Era aquela amiga de infância a desejar felicidades.
Felicidades? - pensa. Quem disse que vou ser feliz? Porque não?
Admira pela centésima vez o quarto, os objectos, abre a porta do WC dirigindo-se ao lavatório para enxugar o rosto e lavar as mãos que estavam mais molhadas que qualquer rio.
Toma um duche enquanto pensa: "isso passa".
Ainda falta uma hora para o galo acordar.


(Escrito em 23 de março de 2011)

A azáfama de Eva

Mais um dia entre reuniões e papéis, sistematicamente interrompida pelo trim do telefone e pelo toc toc da porta.
- Eva, aquele e-mail?
- Eva, uma chamada.
- Eva, aquele documento?
- Eva, ...
- Eva, ...
Solicitada por todos, Eva tinha a resposta que todos procuravam, conseguia organizar-se naquele constante corre-corre.
Ainda assim, calmamente, folheava os documentos em busca da resposta à nova solicitação. Enfrentava aquela colega, uma vez mais, com um sorriso acolhedor e tranquilizador na certeza de que, uma vez mais, a poderia ajudar.
Era mais um dia em que chegaria a casa e teria que mergulhar nos assuntos importantes da sua profissão, prioridade da sua vida.


(Escrito a 15 de Março de 2011)

A primeira viagem

Pude por um dia conduzir aquele carro bordeaux enorme. Sentei-me ao volante, olhei em volta para ler o mapa do carro e a bússula que me iria orientar.
Tudo estava no devido lugar: o volante, as mudanças, o banco, o rádio. Até o perfume que pairava no ar se tornava especial.
Num olhar súbito, constatei que não havia pedais. Uauuu.... o carro era automático. Desejosa de fazer aquele passeio com o meu avô, assim que fechamos as portas o carro começou a trabalhar. Curiosa pela condução e preocupada por transportar outra pessoa, decidi colocar os pés no volante. A condução era alternada: ora com as mãos ora com os pés no volante.
Experimentar a condução absorvia toda a atenção tal como a primeira vez que manuseei um tubo de ensaio para realizar uma experiência nas aulas ciências.
O Olhar do meu avô, as suas mãos pousadas sobre os joelhos, o sorriso eram tranquilizadores levando-me a pensar que tudo estava bem.
O silêncio que tocava no rádio e o perfume que pairava no ar fizeram-me desfrutar do momento.
No final da viagem, já em casa, partilhamos a experiência. Só aí percebi que esta viagem também fora especial para o meu avô.

(Escrito a 2 de Março de 2011)

Primavera

Naquele momento tudo parecia sombrio, as dúvidas eram muitas, o futuro longínquo, o apoio percebido era mínimo. O desejo de vencer na vida uma vezes era gigante e noutras alturas parecia esconder-se num local inacessível tornando-se imperceptível.
O gigante era motor de lutas, de esforços e conquistas bem sucedidas com aquele exército paralelamente alinhado capaz de intimidar quem se aproximasse. O sorriso, a alegria, a vontade de viver transbordavam, qualquer tarefa era de fácil execução. O desejo de desenhar planos futuros aumentava. Em sonhos acordados inaginava-se o palácio e a vida sem dificuldades, olhando-se apenas para a flor firme da rosa.
Os espinhos do caule da rosa também faziam parte do dia-a-dia adolescente. O maior espinho condicionou todo o percurso crescente do caule da rosa. As marcas que deixou são irreparáveis. Ainda assim, o caule encontrou caminhos alternativos e em primaveras menos iluminadas também a rosa abriu.
Hoje, abrem-se as memórias. Permanecem dúvidas e questões em relação ao passado, ao presente e ao futuro. Reconhece-se que se muda, não sabemos se para melhor. Sabemos que reconhecer isso é já indicador de aprendizagem, maturidade. Valoriza-se agora o que sempre nos ensinaram sem que se anulem os sonhos pessoais. Somos fortes para crescer nas dificuldades, na certeza de que as amizades que se perpetuam no tempo continuam a ser a água e a luz essenciais para o despertar de todas as primaveras.

Também hoje se fez primavera. Percebe-se que a missão foi cumprida, mas muito há ainda a fazer. Manter a promessa feita, de que a amizade é intemporal e residente em todas as estações do ano.

Para a Bruna