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Uma noite de insónia

O último olhar para o espelho de luzes intensas e claras, o perfume do quarto, o toque naquele vestido branco-luz que ilumina a porta que se abria.
Repousa a cabeça sobre a almofada e o corpo sobre a cama. Sacode o corpo em busca de tranquilidade e descontracção. O pensamento vagueia, avança e recua pela infância, amores e desamores, o encontro, o beijo, o pedido.
Sacode de novo o corpo e, autoritária, ordena: "descontrai, vai correr tudo bem, vou ser feliz!".
O tic-tac do relógio lentifica-se, o pensamento é como a luz e o som em competição.
Repousa, descansa. - pensa.
Olha de novo para as horas. Passaram trinta segundos desde o último olhar.
Acendeu-se o telemóvel que descansava em cima da cómoda.
Quem será? - pensa. Será que desistiu?
O coração parece um leopardo em defesa da cria, capaz de correr perigos e superar inseguranças.
Era aquela amiga de infância a desejar felicidades.
Felicidades? - pensa. Quem disse que vou ser feliz? Porque não?
Admira pela centésima vez o quarto, os objectos, abre a porta do WC dirigindo-se ao lavatório para enxugar o rosto e lavar as mãos que estavam mais molhadas que qualquer rio.
Toma um duche enquanto pensa: "isso passa".
Ainda falta uma hora para o galo acordar.


(Escrito em 23 de março de 2011)