Naquele domingo, num banco de jardim, um senhor de meia idade, aparentemente solitário, folheava tranquilamente o jornal. Finda esta tarefa, levanta o olhar, olha em volta e, sem tecer quaisquer comentários, abre o saco que repousava à sua direita para nele colocar o jornal. Tudo indicaria que este se aprumava para deixar vago o lugar de jardim, naquela sombra tão cobiçada. Em vez disso, tira agora uma revista, daquelas que acompanha os jornais domingueiros que fala de tudo e está repeleto de imagens e publicidade. Mantendo a tranquilidade, folhea as páginas, delicia-se com os títulos e com a publicidade à lingerie da moda.
Uns metros à frente, um bando de crianças corre pelos jardins. Qual passarinhos, qual quê?, pareciam aves de rapina, saídas naquele preciso momento do mais longo período de hibernação. Corriam e saltavam, desejavando absorver toda a energia que um peçado de relva verde irradia. Aquele jardim monocromático, em tons de verde e castanho, apenas era animado pelos tons joviais dos que por lá passavam, uns de t-shirt branca, outros de preto, com camisas vermelhas e amarelas desabotoadas ou casacos azuis de mangas arregaçadas.
Para completar o cenário, os pais de trajo domingueiro e as mães de salto alto à altura, estravazavam as histerias até então camufladas, soltando esguinchos e gritos imperceptíveis aos ouvidos das suas crianças. A determinada altura o cenário era em tudo semelhante a um campo de futebol. Os pais, meticulosos observadores, vociferavam de ponta a ponta na esperança de que as crianças, ocupadas com coisas certamente mais interessantes, lhes dessem ouvidos e adequassem os seus gestos e movimentos para que não se magoassem. As crianças, jogavam e passeavam-se em movimentos aparentemente descoordenados, procurando cumprir com os objectivos dos seus jogos improvisados. O leitor de jornal, espectador deste jogo, que percebe já nada mais perceber desta organização actual, dos objectivos e das regras deste futebol, opta por se remeter ao silêncio e desfrutar dos ruídos do espaço e dos protagonistas do desafio. Os ruídos do rio, água viva e fluída, aplude toda a dinâmica exterior à própria natureza como se dela se apropriasse, tecendo ovações aos utilizadores daqueles jardins.