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Eclipse

Todas as despedidas são tristes,a incerteza do amanhã e depois de amanhã, a maior preocupação com o outro do que connosco próprios. Será possível? Do outro lado da linha a percepção será a mesma?
Os dedos escrevem mensagens, textos que não são enviados nem lidos, quem sabe um dia não revelam a vida oculta que hoje partilhas comigo. As histórias são bizarras, dignas de um filme de acção romântica. O fim da história não está definido. Amanhã logo se vê.
Enquanto te escuto percebo que sofrer por antecipação é mesmo sofrer, a maior parte das vezes é sofrer desnecessariamente, afinal as incertezas do próximo minuto, do próximo segundo permanecem e são mais fortes do que qualquer pensamento que possamos ter.
Todos gostamos de nos sentir escutados, por isso te escuto. Faz parte de mim. As páginas da tua história são mais importantes que as da minha, as prioridades da tua vida são mais importantes do que as da minha. Escuto-te sempre, mesmo quando me começo a convencer que já não necessitas dos meus ouvidos, do meu olhar de escuta atenta, dos meus lábios cerrados que aprisionam as palavras.
Nesse teu silêncio sei que me escutas, acredito que sim, convenço-me disso, sei que sim. As tuas capacidades telepáticas garantem-me que estás por perto, iludem o pensamento que vagueia, aparentemente perdido, por entre as nuvens que atravessamos juntos.
Os movimentos de rotação e translação afastam as nuvens da terra e do sol. Nesta época do ano, neste pólo sul, longa é a noite que se instala, curto é o dia que se mostra e nos presenteia com o mais largo dos seus sorrisos. Nos momentos em que a lua e o sol se cruzam, a luz fica encoberta, uma vez mais. Não se esconde por muito tempo, não consegue. O sol regressa, os ouvidos, a boca e o olhar ficam de novo despertos num novo sinal de dia, de vida e esperança do amanhã.

Papel

Observas a minha caligrafia e pedes-me um papel.
Perguntas-me se te posso desenhar o alfabeto em minusculas e maiscúlas. Dás-me um papel e um lápis.
Deixe-te conduzir e segui as instruções que davas.
Pediste-me que no caderno de duas linhas te escrevesse uma frase. Tudo o que me ocorreu, foi "És muito especial e muito bonita!". Leste a frase com dificuldade e sorriste. Parecia que nunca antes tinhas recebido um bilhete com uma mensagem especial. Eras mesmo especial.
Na linha de baixo, quizeste escrever uma frase original. Lentamente, copiavas cada uma das letras da linha de cima e no final tinhas reproduzido a frase que te foi dirigida. Acrescentaste-lhe a emoção, que ficou marcada nas restantes linhas daquela primeira página.
Voltaste a página e, com o alfabeto à frente, começaste a escrever uma carta. Aproximava-se o dia da mãe, a tua mente estava focalizada nesse momento, há muito que aí tinha parado.
Começaste: "Mãe, gosto muito de ti. Eras especial. Tenho saudades tuas."
Não foi necessário incentivar-te a escrever o restante texto que desenhavas por entre erros, gralhas e uma grafia por vezes imperceptível. O lápis desenhava as letras com o sangue que ainda te corria nas veias e que clareava com as lágrimas que te molhavam o rosto. O olhar cabisbaixo e fixo no papel viajava até ao momento em que a tua mente tinha parado. Respeitei o teu silêncio, deixamo-lo desabrochar.
As poltronas em que nos sentavamos eram mais confortáveis do que as palavras que escrevias, mas nem nelas conseguimos encontrar conforto. As cortinas vermelhas das janelas daquele cubiculo pareciam dançar ao ritmo do vento que entrava pela janela em sinal de liberdade.
Continuaste a escrever. Deixei-te.
Quando terminaste, quiseste ler-me a tua história, aquele conto. Escutei-te atentamente e quando me pedias ajuda para ler as palavras que escreveras e não conseguias decifrar apenas te enumerava as letras para que pudesses ser tu a proferi-las.
No final, ergueste a cabeça, esboçaste um sorriso no olhar e um brilho nos lábios como nunca antes mostraras. Parecias livre. Confiaste-me o teu segredo, o mesmo que confiaste ao papel que não te atraçoará e que eternamente guardará.

Vou ter saudades tuas

Por momentos regressamos à Terra do Nunca. Tudo é simples e as palavras proferidas puras.
Passamos a vida emersos em discursos ensaiados, conversas de circunstância onde todos nos querem ensinar "etiqueta e boas maneiras" sociais, as mesmas que nascem connosco e aguardam pelo momento certo para, num efeito surpreendente, se libertarem.
Foi assim:
Quando baloiçamos erguemos os braços ao céu para podermos voar e ser livres como a maior e mais pequena ave. Ao soltar os braços, inspiramos, sorrimos, os olhares brilharam, os rostos ficaram rosados, transpiramos alergria e liberdade. Com orientação podemos manter alguma conversação, convidar um amigo para almoçar, conhecer o seu prato perferido. Esparguete com almôndegas ou carne picada? Corremos, fizemos jogos de mímica, colocamos as regras e aceitamos as regras dos outros, ganhamos e perdemos sem lágrimas ou bater de pés. Fomos a correr despedir-nos. Queriamos mais.
O sol e o espaço livre uniram-se para nos proporcionarem a liberdade. O cenário ficou completo quando fomos surpreendidos com um beijo espontaneo, um abraço natural e uma vozita que nos sussurou ao ouvido "vou ter saudades tuas".


Self e nós

O self. Os selves. Somos um. Temos vários.Construimo-nos e desconstruímo-nos. Viram-se páginas. O negro pode vir a ser branco passando pelos vários tons de verde, verde-esperança, da certeza de que de alguma forma todos os que passam por nós dão um nó na corda da nossa vida. Uma corda sem retorno, nuns momentos frágil e noutros extremamente resistente. Depois da fragilidade que venha a força. Assim se escrevem as histórias das vidas de todos nós. A minha, a tua. Por vezes, as cordas, os selves cruzam-se, entrelaçam-se em nós que não se desfazem, não se cortam, não se mudam mas reescrevem as nossas histórias. Nós seguidos de mais corda que busca outras cordas para dar novas laçadas e construir mais um self, mais um capítulo sem retorno que  contribui para os selves.

Lápis de cor

O cheiro a lápis de cor, lápis de cera inundavam a sala.
Tapei o nariz e ordenei à minha mente que comandasse as minhas mãos e as pontas dos meus dedos para naquela gigante folha de papel fizesse uns rabiscos.
Rodei a folha várias vezes. Não sabia se a utilizava na horizontal ou na vertical.
Num precalço fiz um risco. Fiquei triste. Tinha manhchado a folha e não tinha outra.
Decidi voltar a página. Voltei a rodá-la várias vezes.
Peguei numa cor. Azul oceano.
Na horizontal pintei o mar.
A cor-de-laranja, vermelho, verde, castanho desenhei os peixes. Eram de todos os tamanhos, cores e feitios. Bilhavam. Estavam cuidados.
Reproduzi a falésia que tinha visto uma vez num livro que folheei.
No extremo da falésia desenhei o farol, guia dos barcos que do oceano se aproximavam.
Preenchi o fundo do oceano de branco, numa tentativa de aproximação à linha do horizonte. Os lápis de cera tinham a cor branca que eu queria utilizar.
Levemente, a cinzento, procurei representar uma montanha com neve. A mesma que um dia vi num outro desenho que alguém cuidadosamente fizera. No cimo da montanha rabisquei um menino, fazendo sky, deslizando para o oceano como se estivesse no aquaparque que agora anunciavam na TV.
Os homens e mulheres dos barcos, passeavam-se. Mergulhavam nas águas profundas do oceano para que o menino também se atirava no maior dos divertimentos.
O desenho tem destas magias, reproduzem os nossos pensamentos, libertam a alma de quem os faz e pinta com a milagrosa capacidade dos lápis de cor.

O baú...

O embrulho desfez-se, roido pelo tempo o papel já era amarelado e velho, quase ferrujento. Dentro estava um baú, fechado a sete chaves. Secretamente olhava-o, contemplava-o. Percorria os trilhos do imaginário das memórias guardadas e esquecidas procurando a chave e a fechadura. Voltou a observar. Continuava fechado. Ficou em perplexidade. «Como poderia alguém guardar um baú que não se consegue abrir».
O ar era preenchido de um perfume de rosas, numa mistura de chocolate e morangos que despertavam os sentidos do sono profundo e estagnado. Lentamente o olhar vislumbrava luz, uma luz azul muito clara que penetrava a pupila e a iris de quem admirava apenas aquele baú. Os ouvidos escutavam melodias simples, numa mistura de harpa e violino que se encontravam e desencontravam. O paladar despertava, deixando a boca inundada da água do desejo de saborear iguarias aromatizadas que despertavam o olfacto. As mãos tacteavam cuidadosamente o baú em busca da mais subtil fenda do acesso ao interior daquela caixa.
Exaustos de procurar e não encontrar, os sentidos acomodaram-se e cairam por entre velharias. O baú permaneceu seguro e atracado nas mãos firmes.
Anoiteceu. A claridade da lua cheia inundava de luz aquele local num cruzamento com a luz que era libertada do baú. Este encontro permitiu que o baú se abrisse. Abriu mesmo.
Fixou o olhar na caixa que brilhava numa alucinante viagem pelo ontem e pelo hoje. Pôde reencontrar e abraçar aquelas as pessoas e momentos residentes na memória humana e que pensava já haver apagado. Naquele instante percebeu-se que não era simples. O presente enchia o baú, passando a ser passado no mais leve pestanejar, por isso era visualizável.
O nascer do sol emergiu e interrompeu as trocas de luz até então inexplicáveis. Estava a fechar-se de novo. A luz estava cada vez mais fraca.
Despertou com o sol. Olhou em volta. O baú estava permanecia pousado sobre as mãos. Já estava fechado. Tudo não passara de um sonho. Um sonho que abriu o baú. Ãquele onde poderia regressar sempre que desejasse, reencontrando as experiências sensoriais profundas que noutros momentos seriam negadas.
Ali se encontrava. Ali te encontrava. Ali vos encontrava.

Três tempos musicais: passado, presente e futuro

Muitas melodias tem apenas três tempos. Na pauta escrevem-se as notas e as pausas dando cor e vida às cinco linhas e aos quatro espaços. Tudo pronto para escutar esta partitura.
O estímulo para o concerto, assinalados com a clave de sol, é suficiente para captar os pormenores que se seguem. Até ao concerto evocam-se os ensaios, a experiência e sabedoria passadas, revivem-se emoções e momentos inexplicáveis e incomparáveis. Os lábios ficam humedecidos pela água que jorra da ansiedade, a mente é povoada de dúvidas, incertezas, inseguranças: como farei? serei capaz? como reagirá o companheiro deste dueto? sobre o público..... prefiro nem pensar. A madrugada é longa e de insónia, o travesseiro o melhor e mais fiel dos companheiros enquanto o pensamento teima em ocupar o lugar reservado pelo sono. A aurora é prematura, os arranjos finais são retocados e projectados num futuro em contagem decrescente percorrido ao som de notas de quatro tempos para se saborear aquele rebuçado de morango cujo odor e sabor adocicado se partilhará.
No segundo tempo, o arranjo recorre a notas de um e dois tempos, numa melodia rápida desprovida de pausas e acompanhada de um coreografia encenada e representada pelos próprios músicos. A respiração e o palpitar cardíaco ocupam o lugar do silêncio. As pausas ficam completas com a lenta, breve e articulada  mudança de indumentária. O som e os ritmos iluminam um presente que se quer desembrulhar, tocar, explorar, conhecer e reconhecer, viver e reviver. Coordenam-se gestos e movimentos singelos que acompanham o ritmo que se entranha pelos poros descobertos e desprotegidos, e que se escutam na escura claridade do que não se deseja ver mas sentir. Era ali, naquele cenário, naquela sala acolhedora e em dueto que seria desejável pemanecer num tempo musical de pausa eterna vivida a um ritmo constante e coerente. A exaustão do momento diluia-se com o poder do mais breve, penetrante e invasivo olhar. Estavam reunidas as condições para a perfeição. Antes do final, sempre dificil e saudosista, vive-se o momento, revivem-se outros, olha-se em volta e aprumam-se os sentidos para captar todos os sinais e momentos da partitura.
Eis que, o tempo terreno invade e ataca, ecoando ruídos tocados a uma velocidade de dois tempos musicais sem pausas com poucas notas musicais que superavam a velocidade de qualquer milésimo de segundo. Permanecerá o  reviver e a possibilidade de reensaiar mentalmente o ensaio-concerto partilhado. Agora o compasso acompanha o ritmo do abrir o fechar de olhos lubrificados e irrigados pelo rio da saudade sempre que se evoca esse e outros momentos, naquela e noutras salas de espectáculo sempre buscando um próximo ensaio-concerto em dueto.