Observas a minha caligrafia e pedes-me um papel.
Perguntas-me se te posso desenhar o alfabeto em minusculas e maiscúlas. Dás-me um papel e um lápis.
Deixe-te conduzir e segui as instruções que davas.
Na linha de baixo, quizeste escrever uma frase original. Lentamente, copiavas cada uma das letras da linha de cima e no final tinhas reproduzido a frase que te foi dirigida. Acrescentaste-lhe a emoção, que ficou marcada nas restantes linhas daquela primeira página.
Voltaste a página e, com o alfabeto à frente, começaste a escrever uma carta. Aproximava-se o dia da mãe, a tua mente estava focalizada nesse momento, há muito que aí tinha parado.
Começaste: "Mãe, gosto muito de ti. Eras especial. Tenho saudades tuas."
Não foi necessário incentivar-te a escrever o restante texto que desenhavas por entre erros, gralhas e uma grafia por vezes imperceptível. O lápis desenhava as letras com o sangue que ainda te corria nas veias e que clareava com as lágrimas que te molhavam o rosto. O olhar cabisbaixo e fixo no papel viajava até ao momento em que a tua mente tinha parado. Respeitei o teu silêncio, deixamo-lo desabrochar.
As poltronas em que nos sentavamos eram mais confortáveis do que as palavras que escrevias, mas nem nelas conseguimos encontrar conforto. As cortinas vermelhas das janelas daquele cubiculo pareciam dançar ao ritmo do vento que entrava pela janela em sinal de liberdade.
Continuaste a escrever. Deixei-te.
Quando terminaste, quiseste ler-me a tua história, aquele conto. Escutei-te atentamente e quando me pedias ajuda para ler as palavras que escreveras e não conseguias decifrar apenas te enumerava as letras para que pudesses ser tu a proferi-las.
No final, ergueste a cabeça, esboçaste um sorriso no olhar e um brilho nos lábios como nunca antes mostraras. Parecias livre. Confiaste-me o teu segredo, o mesmo que confiaste ao papel que não te atraçoará e que eternamente guardará.
