Muitas melodias tem apenas três tempos. Na pauta escrevem-se as notas e as pausas dando cor e vida às cinco linhas e aos quatro espaços. Tudo pronto para escutar esta partitura.
O estímulo para o concerto, assinalados com a clave de sol, é suficiente para captar os pormenores que se seguem. Até ao concerto evocam-se os ensaios, a experiência e sabedoria passadas, revivem-se emoções e momentos inexplicáveis e incomparáveis. Os lábios ficam humedecidos pela água que jorra da ansiedade, a mente é povoada de dúvidas, incertezas, inseguranças: como farei? serei capaz? como reagirá o companheiro deste dueto? sobre o público..... prefiro nem pensar. A madrugada é longa e de insónia, o travesseiro o melhor e mais fiel dos companheiros enquanto o pensamento teima em ocupar o lugar reservado pelo sono. A aurora é prematura, os arranjos finais são retocados e projectados num futuro em contagem decrescente percorrido ao som de notas de quatro tempos para se saborear aquele rebuçado de morango cujo odor e sabor adocicado se partilhará.
No segundo tempo, o arranjo recorre a notas de um e dois tempos, numa melodia rápida desprovida de pausas e acompanhada de um coreografia encenada e representada pelos próprios músicos. A respiração e o palpitar cardíaco ocupam o lugar do silêncio. As pausas ficam completas com a lenta, breve e articulada mudança de indumentária. O som e os ritmos iluminam um presente que se quer desembrulhar, tocar, explorar, conhecer e reconhecer, viver e reviver. Coordenam-se gestos e movimentos singelos que acompanham o ritmo que se entranha pelos poros descobertos e desprotegidos, e que se escutam na escura claridade do que não se deseja ver mas sentir. Era ali, naquele cenário, naquela sala acolhedora e em dueto que seria desejável pemanecer num tempo musical de pausa eterna vivida a um ritmo constante e coerente. A exaustão do momento diluia-se com o poder do mais breve, penetrante e invasivo olhar. Estavam reunidas as condições para a perfeição. Antes do final, sempre dificil e saudosista, vive-se o momento, revivem-se outros, olha-se em volta e aprumam-se os sentidos para captar todos os sinais e momentos da partitura.
Eis que, o tempo terreno invade e ataca, ecoando ruídos tocados a uma velocidade de dois tempos musicais sem pausas com poucas notas musicais que superavam a velocidade de qualquer milésimo de segundo. Permanecerá o reviver e a possibilidade de reensaiar mentalmente o ensaio-concerto partilhado. Agora o compasso acompanha o ritmo do abrir o fechar de olhos lubrificados e irrigados pelo rio da saudade sempre que se evoca esse e outros momentos, naquela e noutras salas de espectáculo sempre buscando um próximo ensaio-concerto em dueto.