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O baú...

O embrulho desfez-se, roido pelo tempo o papel já era amarelado e velho, quase ferrujento. Dentro estava um baú, fechado a sete chaves. Secretamente olhava-o, contemplava-o. Percorria os trilhos do imaginário das memórias guardadas e esquecidas procurando a chave e a fechadura. Voltou a observar. Continuava fechado. Ficou em perplexidade. «Como poderia alguém guardar um baú que não se consegue abrir».
O ar era preenchido de um perfume de rosas, numa mistura de chocolate e morangos que despertavam os sentidos do sono profundo e estagnado. Lentamente o olhar vislumbrava luz, uma luz azul muito clara que penetrava a pupila e a iris de quem admirava apenas aquele baú. Os ouvidos escutavam melodias simples, numa mistura de harpa e violino que se encontravam e desencontravam. O paladar despertava, deixando a boca inundada da água do desejo de saborear iguarias aromatizadas que despertavam o olfacto. As mãos tacteavam cuidadosamente o baú em busca da mais subtil fenda do acesso ao interior daquela caixa.
Exaustos de procurar e não encontrar, os sentidos acomodaram-se e cairam por entre velharias. O baú permaneceu seguro e atracado nas mãos firmes.
Anoiteceu. A claridade da lua cheia inundava de luz aquele local num cruzamento com a luz que era libertada do baú. Este encontro permitiu que o baú se abrisse. Abriu mesmo.
Fixou o olhar na caixa que brilhava numa alucinante viagem pelo ontem e pelo hoje. Pôde reencontrar e abraçar aquelas as pessoas e momentos residentes na memória humana e que pensava já haver apagado. Naquele instante percebeu-se que não era simples. O presente enchia o baú, passando a ser passado no mais leve pestanejar, por isso era visualizável.
O nascer do sol emergiu e interrompeu as trocas de luz até então inexplicáveis. Estava a fechar-se de novo. A luz estava cada vez mais fraca.
Despertou com o sol. Olhou em volta. O baú estava permanecia pousado sobre as mãos. Já estava fechado. Tudo não passara de um sonho. Um sonho que abriu o baú. Ãquele onde poderia regressar sempre que desejasse, reencontrando as experiências sensoriais profundas que noutros momentos seriam negadas.
Ali se encontrava. Ali te encontrava. Ali vos encontrava.